A Primeira Aula de

     Matemática

            

                       

                    Introdução

Após cinco anos como aluna na Universidade de Évora,  eis que chegou o dia de passar para o outro lado da “barricada”. Confesso que aguardava o dia 17 de Setembro com alguma ansiedade. Afinal, seria a primeira vez que iria enfrentar uma turma e, como quase tudo o que é novidade, provocou em mim um sentimento de alguma inquietação e nervosismo. Como seriam os alunos? Como seria o meu desempenho perante eles? Um mar de dúvidas inundava a minha mente!

A planificação desta aula foi, talvez, a mais difícil de idealizar. Era meu objectivo cumprir alguns dos ideais em que acreditava, de modo a conseguir “agarrar” a turma, estabelecendo regras de conduta com o intuito de evitar problemas futuros. Sim, é verdade, desde o início do estágio que o meu maior receio foi (e ainda o é), o controlo da disciplina em sala de aula. Previamente, eu e a minha colega de estágio preparámos, meticulosamente, todos os passos e pormenores, para que a aula seguisse uma estrutura lógica.

            Em baixo segue o plano desta aula, que passarei a analisar, de seguida:

                    Plano de Aula

                                                         Apresentação

Aula nº 1/2                                                                              Ano: 8º ano

Data: 17/Set/2002                                                                  Turma: C

 

 

Conteúdos:

        -     Apresentação

              -          Tangram chinês

 

Objectivos Específicos:

        -    Integração do professor com a turma;

      -     Conhecer melhor os alunos;

      -     Introdução à primeira unidade didáctica.

 

Estratégias/Desenvolvimento:

ü      As professoras iniciarão a aula depois de todos os alunos estarem acomodados nos seus lugares e em silêncio;

ü    De seguida, as duas professoras que irão leccionar a turma, apresentam-se individualmente, dizendo o seu nome, idade, naturalidade, da sua condição de professoras estagiárias e que, por vezes, irão assistir às aulas mais alguns professores (esta turma tem como professora responsável a estagiária Lénia Rico);

ü    É explicado aos alunos os moldes de funcionamento das aulas de Matemática: a turma será acompanhada pelas duas professoras, estando uma delas mais voltada para o apoio individual de cada aluno (neste caso a estagiária Patrícia Mendes);

ü    É pedido a cada aluno que se apresente individualmente:  nome, idade, naturalidade, outras actividades extra-escolares que tenham, o que fazem nos tempos livres, o que pensam ser,...;

ü    Depois da apresentação dos alunos são distribuídas as fichas biográficas para preenchimento;

ü     É dado a conhecer aos alunos, as Unidades Didácticas que irão ser leccionadas ao longo do ano, assim como o manual adoptado (Unidades Didácticas estão em “Observações”);

ü     É distribuída a lista do material necessário para aulas de Matemática;

ü     É dado a conhecer aos alunos os vários parâmetros de avaliação da disciplina de um modo generalista;

ü     Procede-se à marcação dos testes de avaliação do 1º período: dia 7 de Novembro e dia 12 de Dezembro (ambos numa 5ª feira);

ü      Discussão com os alunos das normas de funcionamento da aula:

-    Pontualidade: 10 min de tolerância no 1º tempo da manhã, quem chegar depois pode entrar mas com falta assinalada no livro de ponto;

-    Assiduidade;

-    Não são permitidos objectos do modo a perturbar o funcionamento das aulas (telemóveis, rádios,...);

-    “Saídas mais cedo ou entradas mais tarde não há, assim como idas à casa de banho, os pequenos almoços são tomados antes de vir para a escola e o almoço depois do toque de saída”;

-    Entrada ordenada na sala de aula, sem atropelos;

-    Bonés dentro da sala não são permitidos;

-    Não é permitido riscar as mesas;

-    O nível de ruído deve ser o apropriado para uma sala de aula;

-    Deve haver respeito pelo próximo (não interromper, respeitar opiniões diferentes, colocar o braço no ar quando quiser falar...).

 Nesta altura pede-se aos alunos sugestões para o não cumprimento das normas acima mencionadas. Caso não existam sugestões a responsabilidade recairá sobre as professoras.

ü     Anotam-se as principais normas e suas punições, caso hajam sugestões por parte dos alunos, numa cartolina que será afixada na sala de aula;

ü     Com o tempo restante, é proposto aos alunos uma actividade lúdica, com o tangram chinês, o que servirá de motivação à primeira unidade leccionada. Conta-se uma história do tangram chinês e só depois é distribuída a actividade. Para a resolução da actividade, são formados grupos de 3 a 4 alunos com objectivo de fazer um “concurso”. Uma vez os grupos formados, é distribuída uma figura diferente por grupo. Depois de todos os  grupos  resolverem o puzzle, um elemento  vai ao retroprojector mostrar a solução, enquanto os restantes alunos preenchem as soluções numa ficha fornecida.

 

Material Necessário:

o        Fichas biográficas dos alunos;

o        Lista de material necessário para a aula de Matemática;

o       Cartolina;

o       Marcador;

o       Tangram chinês;

o       Ficha da actividade lúdica;

o       Retroprojector.

 

Sumário: Apresentação. Preenchimento dos registos biográficos dos alunos. Normas para o bom funcionamento da sala de aula. Ficha n.º 1 “O Tangram Chinês”.

Apresentação

Após a entrada na sala de aula, reparei que os alunos estavam expectantes, sobretudo por estarem duas professoras na sua sala, apesar do conhecimento prévio que já possuíam dos professores da turma. Os primeiros momentos foram, assim, dedicados à apresentação individual de cada professora. Aqui, colocou-se a dúvida de os informar ou não da nossa condição de professoras estagiárias. Quanto a mim, não havia razão para ser omitida esta informação, pois penso que eles não seriam nada “inocentes” e, mais cedo ou mais tarde, acabariam por sabê-lo. 

Seguiu-se a apresentação individual de cada aluno. Foi-lhes pedido que falassem um pouco sobre eles, dos seus interesses, onde moravam, o que gostariam de fazer no futuro. Neste momento, alguns alunos mostraram-se mais à vontade, revelando o seu carácter mais extrovertido; outros, pelo contrário, limitaram-se a dizer o seu nome, a idade e pouco mais, indiciando um carácter mais retraído.

        Após a apresentação de todos, seguiu-se  o momento da aula mais monótono, com o preenchimento das fichas biográficas, o relatar do material necessário para a aula, a marcação dos testes, a apresentação das unidades didácticas e dos parâmetros de avaliação, assuntos estes fastidiosos, comuns à maior parte das disciplinas e de abordagem necessária.

               Estabelecimento de Normas

        Como já referi, um dos meus maiores receios na prática do ensino, centrava-se no controlo da turma, quanto à disciplina a ser mantida na sala de aula. Julgo ser importante a existência de normas e regras, como o respeito pelo próximo, sendo a base para que exista um bom funcionamento numa aula. Deste modo, foi previamente ponderada, juntamente com os restantes colegas do Núcleo de Estágio (Orientador incluído), a melhor estratégia para a sua abordagem inicial. 

        Assim, pensámos elaborar uma cartolina por turma, onde estariam indicadas as principais normas a seguir, as “contra-ordenações” para os desobedientes,  ratificada, por todos os intervenientes, de modo a responsabilizá-los, tal como de um contrato se tratasse. Lembro-me que, no momento das assinaturas um aluno, o Marco, não queria assinar, alegando não concordar com o conteúdo da mesma. Acabou por fazê-lo algo contrariado e evidenciando, logo aí, o seu carácter teimoso, confirmado ao longo de todo o ano lectivo. Foi assim que procedemos e, após breve discussão com a turma, um aluno preencheu a cartolina, que ficou exposta num “placard” da sala,  durante as primeiras aulas de Matemática.

            

         O Tangram Chinês

        Após todos os procedimentos habituais numa primeira aula restariam, caso os meus cálculos estivessem correctos, cerca de 45 minutos da aula, vistos como um desperdício caso não fossem aproveitados para algo mais. Já no meu tempo de aluna, as primeiras aulas do ano se resumiam, apenas, às apresentações da praxe, onde mais cedo ou mais tarde, os professores acabavam por dar encerrada a aula,  deixando sair mais cedo os alunos. 

        Entendi que os alunos não deveriam sair mais cedo, por ser esta a sua (e também a minha) primeira aula de Matemática. Tinha consciência que a ideia, seguramente, não lhes agradaria mas, se pensasse numa actividade interessante e motivadora para eles, talvez pudesse ter, no final, um “feedback” positivo. Foi isso que acabou por acontecer!

A Planificação Anual, elaborada dentro do Núcleo de Estágio, indicava  a “Decomposição de Figuras- Teorema de Pitágoras” como a primeira unidade a ser leccionada e, como primeiro conteúdo a ser abordado, a “Decomposição de polígonos em triângulos e quadriláteros” . Assim, pensei que se utilizasse o Tangram Chinês, seria um bom início para explorar, de forma lúdica e interessante, o conteúdo, o que acabou por ser feito, pois os alunos interpretaram a actividade como Matemática Recreativa, não associando a aula à “matéria”.

A estratégia para a resolução da actividade, passava por dividir a turma em grupos de 3 a 4 elementos, aos quais se distribuía um Tangran Chinês, construído em cartolina colorida, para posterior manipulação.

                                

De modo a estimular o interesse pela actividade, começou-se por contar uma lenda para a provável origem do Tangram. A história  baseava-se  num criado, trabalhador de um palácio da antiga China e que, um dia, terá deixado cair um azulejo, tendo-se partido no chão, formando  com os seus pedaços as peças do Tangram e com os quais ele se recreou, a formar diversas figuras. Penso ser importante a abordagem de aspectos relacionados com a História da Matemática, de modo a evidenciar a construção da Matemática ao longo dos tempos.

O objectivo da actividade era, então, utilizar as sete peças do Tangram, para a construção de uma figura distribuída. Cada grupo teria uma figura para construir e, no fim, todos iriam apresentar a sua resolução no retroprojector. As figuras, assim como o enunciado da actividade, encontram-se  em baixo indicadas:

                      

                           Escola Básica dos 2º e 3º ciclos de Vendas Novas

                                                      Matemática - 8º Ano

                                                                    Ano Lectivo 2002/2003

                                                                                

                                   Ficha nº1: O Tangram Chinês        

 

Imagina que eras o(a) criado(a) do palácio e utilizando as sete peças do Tangram que te são dadas tens de construir a seguinte figura:

   

  

                 

Considerações Finais

 

        A primeira aula na vida de uma criança que entra pela primeira vez para a escola primária é marcante na vida. O mesmo penso em relação à primeira aula na vida de um professor. As relações iniciais entre professor de Matemática, aluno e conteúdos matemáticos, são marcantes do ponto de vista humano. Cabe ao professor organizar, gerir e coordenar com o máximo cuidado uma primeira aula, levando em consideração, sempre que possível, as reais necessidades dos seus alunos. Por outro lado, são conhecidos relatos de outros professores, em relação à conduta que eles tomavam na sua primeira aula com uma turma, “não mostrar os dentes” no primeiro mês era a base da sua orientação. Contudo, tenho a noção que não seria capaz de agir da mesma forma, pois a minha personalidade não se adapta à rigidez, à máscara de um general que tem de comandar com pulso firme as suas tropas.  Prefiro dar valor às relações humanas que se estabelecem no dia-a-dia, que se vão construindo com o tempo e que podem conduzir à resolução pacífica de pequenos problemas que vão surgindo.

        Deste modo, constato o sucesso da minha primeira aula, tendo existido momentos em que se falou,  momentos em que se riu e momentos em que se trabalhou. Foram superadas as minhas melhores expectativas! 

        Nas minhas futuras primeiras aulas com uma turma (pois agora já não será a minha primeira aula), pensarei agir de modo idêntico, mas caso algo corra mal, terei sempre humildade para mudar.

 

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